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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Cabelos alvos
escrito em quarta-feira, 3 de outubro de 2012 às 16:26
As paredes não abafam o falatório. A rua e os postes podem escutar tudo... imagina então os vizinhos. Se acostumaram talvez. É sempre assim, sempre foi assim. Todos os vizinhos que já moraram naquela rua se acostumaram com as conversas, com o movimento daquela casa. Com as bolas que caíam em seus quintais a muitas décadas atrás. Com a fumaça que se espalhava e se espalha em seus quintais nos dias de churrasco. Família grande, estrago grande - se é que você me entende.
Mas agora todos estão velhos. A mãe principalmente. Mãe de 7 filhos, estes, todos casados. É viúva já faz 17 anos, mas já comemorou as bodas de ouro. No dedo ainda está a aliança, apesar da artrose incomodar. Ela senta encostada no sofá, as mãos enrugadas repousadas no colo, e as pernas ficam balançando, sem alcançar o chão. Chão onde, em cima de um tapete, repousa um chinelo felpudo.
Os filhos estão todos naquela sala. Reclamando de um cliente, fofocando sobre a vizinha, comentando sobre o natal que está próximo. Os netos, todos crescidos, estão na varanda dos fundos. Costumam ficar lá jogando baralho, conversando, comendo.
Nas paredes, os porta-retratos. Dezenas. Formatura de um neto, casamento de um filho, nascimento de um bisneto. Tantos feriados juntos, tantos aniversários. Cada porta-retrato e cada quadro conta uma história diferente. As memórias estão congeladas nas paredes e impregnadas no cheiro da casa. Cheiro de pão caseiro.
As almofadas contém a mesma estampa de sempre. A casa, de alvenaria, os móveis, de madeira. Todos. As prateleiras transbordam de suvenires. Os discos estão guardados em uma caixa, e uma máquina de escrever está no quarto. Um fogão à lenha fica perto da churrasqueira, e eles ainda tem o costume de acender a lareira nos dias frios.
A conversa na sala ecoa pela casa inteira. Todos falam alto, e ao mesmo tempo. Corpos cansados, mentes cansadas. Os cabelos já começaram a cair, as mãos, a enrugarem. O número de remédios aumentou muito, e o óculos estão sempre por perto. Falas altas, cabelos alvos - corações alvos?
O corpo da senhora dói. Suas pernas estão inchadas, e andou pensando em pedir para algum neto lavar a louça para ela. Talvez alguém quer dormir com ela essa noite. Ela acha tão ruim a casa ficar vazia. Antes, esta era tão bagunçada, tão cheia. Bom, ainda é, mas não o tempo inteiro, e ela sente falta disso.
Ela olhou para seus filhos. Era uma sexta-feira, e todos estão exaustos. Ela sabe disso. E sabe também porque suas visitas estão tão frequentes... ela tem 84 anos, e isso não é assustador só para ela.
Marcadores: história

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Cabelos alvos
escrito em quarta-feira, 3 de outubro de 2012 às 16:26
As paredes não abafam o falatório. A rua e os postes podem escutar tudo... imagina então os vizinhos. Se acostumaram talvez. É sempre assim, sempre foi assim. Todos os vizinhos que já moraram naquela rua se acostumaram com as conversas, com o movimento daquela casa. Com as bolas que caíam em seus quintais a muitas décadas atrás. Com a fumaça que se espalhava e se espalha em seus quintais nos dias de churrasco. Família grande, estrago grande - se é que você me entende.
Mas agora todos estão velhos. A mãe principalmente. Mãe de 7 filhos, estes, todos casados. É viúva já faz 17 anos, mas já comemorou as bodas de ouro. No dedo ainda está a aliança, apesar da artrose incomodar. Ela senta encostada no sofá, as mãos enrugadas repousadas no colo, e as pernas ficam balançando, sem alcançar o chão. Chão onde, em cima de um tapete, repousa um chinelo felpudo.
Os filhos estão todos naquela sala. Reclamando de um cliente, fofocando sobre a vizinha, comentando sobre o natal que está próximo. Os netos, todos crescidos, estão na varanda dos fundos. Costumam ficar lá jogando baralho, conversando, comendo.
Nas paredes, os porta-retratos. Dezenas. Formatura de um neto, casamento de um filho, nascimento de um bisneto. Tantos feriados juntos, tantos aniversários. Cada porta-retrato e cada quadro conta uma história diferente. As memórias estão congeladas nas paredes e impregnadas no cheiro da casa. Cheiro de pão caseiro.
As almofadas contém a mesma estampa de sempre. A casa, de alvenaria, os móveis, de madeira. Todos. As prateleiras transbordam de suvenires. Os discos estão guardados em uma caixa, e uma máquina de escrever está no quarto. Um fogão à lenha fica perto da churrasqueira, e eles ainda tem o costume de acender a lareira nos dias frios.
A conversa na sala ecoa pela casa inteira. Todos falam alto, e ao mesmo tempo. Corpos cansados, mentes cansadas. Os cabelos já começaram a cair, as mãos, a enrugarem. O número de remédios aumentou muito, e o óculos estão sempre por perto. Falas altas, cabelos alvos - corações alvos?
O corpo da senhora dói. Suas pernas estão inchadas, e andou pensando em pedir para algum neto lavar a louça para ela. Talvez alguém quer dormir com ela essa noite. Ela acha tão ruim a casa ficar vazia. Antes, esta era tão bagunçada, tão cheia. Bom, ainda é, mas não o tempo inteiro, e ela sente falta disso.
Ela olhou para seus filhos. Era uma sexta-feira, e todos estão exaustos. Ela sabe disso. E sabe também porque suas visitas estão tão frequentes... ela tem 84 anos, e isso não é assustador só para ela.
Marcadores: história

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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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