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A AUTORA


Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)

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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)

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Atire para matar
escrito em quarta-feira, 10 de outubro de 2012 às 14:47


      
     O vento fazia as árvores dançarem, o sol estava escondido e a chuva ajudava a esconder as minhas pegadas naquele emaranhado de galhos e folhas. A floresta estava escura, e o chão escorregadio. Eu tinha que correr com cuidado, me preocupando em não perder a minha trilha, e atenta a qualquer barulho que o som da chuva não conseguisse esconder.
     Ela estava por aí, a minha caça, correndo desesperada por sua vida. Quando se está assim, você não se preocupa muito com suas pegadas, não olha para o chão, muito menos se importa com o barulho que se está fazendo, a única coisa que se quer é sobrevivência, é correr para bem longe e fugir do alcance do caçador. É encontrar um lugar para se esconder. 
     Ontem, eu fiquei em cima de uma árvore a noite inteira, observando o animal se alimentar ferozmente, tentando recompor suas energias. Mas ele estava sempre alerta. O brilho da lua não conseguia ofuscar aquele brilho nos olhos de pura loucura, puro instinto. Naquela noite eu não consegui atirar. A flecha apontava diretamente para o seu coração que parecia prestes a sair do corpo, mas eu não consegui atirar. Fiquei observando aquele animal estúpido preparando um lugar para dormir ali mesmo, numa sombra mais densa de uma imensa árvore, como se aquilo fosse um bom esconderijo. Ele custou para dormir. Qualquer cigarra que interrompesse o seu canto, qualquer galho que caísse, fazia com que ele despertasse num salto. Eu quase senti pena. 
     Essa era agora uma perseguição de dois dias. Tinha me alimentado somente de raízes e um pássaro que eu abatera nessa tarde, e saciado a minha cede com um riacho que encontrara no caminho. Mas a chuva agora me reanimara, e eu corria com mais vontade, mais atenta, esquecendo a fome, as dores no corpo, a vontade de desistir. Meu longo cabelo caia em meu rosto, mas eu não o arrumava, pois a flecha estava pronta no arco. Eu podia escutá-lo. A caçada estava terminando. 
     Eu apertei o passo, e conforme os sons chegavam até mim, percebi que a caça estava indo mais para o leste. Essa parte da floresta, menos densa, eu não conhecia. As posições das árvores formavam corredores  mais fáceis de se movimentar, de atirar. Escorregando na lama, parei de correr.  Segurei o meu fôlego e me imaginei num lugar quieto. Fechei os olhos. Primeiro eu ignorei o som da chuva, dos galhos rangendo e dos pássaros que continuavam cantando naquele temporal. Tive que me esforçar para deixar de lado o som da minha respiração e não pensar mais em nada, nada além do meu alvo. 
     Tum tum tum. Pude ouvir o som dos passos ritmados ecoando no chão, amassando as folhas. Abri os olhos, puxei a corda do arco e apontei a flecha para seu coração. Ao me ver, ela parou de correr. Ela sabia de suas chances. Mesmo tendo me convencido nesses dois dias que era um ser irracional, percebi que ela sabia que morreria naquele momento. Ela era a caça, e eu era o caçador. 
     Os olhos estavam arregalados, a lama cobria todo o seu corpo. Seu corpo tremia descontroladamente e sua boca sussurrou piedade. Por um segundo eu temi recuar, mas então lembrei daquelas palavras "Qual a diferença de caçar um animal e um humano?". A flecha assobiou no ar. Eu havia passado no teste. 


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