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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Um nome, uma história
escrito em quinta-feira, 18 de outubro de 2012 às 16:51
- Ela está atrasada.
A sua voz foi engolida pelo som do vento e eu não tinha certeza se tinha deixado algo passar. Ela tinha uma personalidade muito forte, mesmo em silêncio, e era difícil acompanhá-la. Ela era diferente de todos que eu já conhecera, e eu adorava olhar os desenhos que cobriam sua pele. Naquele corpo agora desconfigurado, naquela pele enrugada, as tatuagens chamavam a atenção de todos. Elas eram lindas, coloridas, estando espalhadas pelo corpo inteiro, mas nem sempre os outros reparavam nelas por causa disso...
- Ela está atrasada - repetiu.
Marie Grasp Autun, é o seu nome. Oitenta e oito anos. Sua esquizofrenia é controlada com uma alta quantidade de remédios, mas a sua amnésia vem piorando com o tempo. Sua família? Deixou ela aqui, e nunca mais veio visitá-la. O único que costumava vir era um garoto de 18 anos, um antigo vizinho dela, que morreu faz agora três anos. Nem preciso falar o quanto ela ficou arrasada.
- Quem? - Eu perguntei.
- A orquídea.
Respirei fundo. Depois da morte de Charlie ela se tornara obcecada pela orquídea. É uma bela planta, que só da botões uma vez por ano, e dura um mês desabrochada em sua beleza. Suas pétalas são brancas, e o seu perfume, maravilhoso.
- Ela está atrasada. Os seus botões... - ela foi interrompida por uma borboleta que pousou em sua mão, em cima da tatuagem de âncora. Pude ver os seus olhos se enchendo de lágrimas. A borboleta voou e pousou na orquídea, que parasitava na árvore a qual desfrutávamos da sombra.
Marie continuou em silêncio contemplando-a, perdida talvez em algum flashback, cada vez mais frequentes.
Naquele dia ela vestia uma enorme camisa jeans, e um shorts de malha preto. Usava um chapéu de abas grandes, e um óculos gatinho repousava em seu colo. No dedo, sua aliança. E nas pernas, nos braços, estavam as tatuagens. Ah!, essas me fascinavam. Elas, mais que tudo, me contavam histórias de quem Marie havia sido. Elas eram uma porta para o passado daquela mulher, e ajudavam-a a lembrar de quem uma vez havia sido quando a amnésia atacava.
As tatuagens eram inúmeras. Uma rosa, uma cruz, uma âncora, um rosto desconhecido de mim, um castelo, algumas frases. Na sua sua orelha, os três furos não passavam despercebidos por mim. Suas cicatrizes nos joelhos sempre me despertavam curiosidade, mas ela nunca havia me contado a história. Os seus olhos eram de um azul escuro, chamativo em todo aquele contraste de pele e cabelos brancos. Me pergunto se ela tinha cabelos escuros.
- Ela está atrasada assim como ele se atrasou naquele dia - Marie continuava olhando a borboleta, os olhos vidrados, e continuou falando como se eu não estivesse sentada no banco ao lado dela - O dia está preguiçoso assim como ele estava naquele dia. E a borboleta... essa borboleta é a mesma daquele dia, onde o bater de suas asas fazia mais barulho do que a boca dele.
Ela devia estar falando de Charlie, e eu tinha recebido ordens para não deixá-la tocar nesse assunto, pois suas crises pioravam conforme sua lembrança dele melhorava.
- O dia está preguiçoso? - Eu disse inocentemente - Claro que não. Escute como os passarinhos estão cantando com vontade, e como o dia, o sol, custa a baixar.
A borboleta alçou vôo, e ela me olhou. O rosto sério.
- A orquídea devia estar florida, mas o resto do jardim devia estar morto. É injusto tudo exalar vida, menos a orquídea dele. Naquele dia... - ela esfregou a têmpora, como se fizesse forças para se lembrar - Naquele dia ele me disse algo importante.
A curiosidade me tirou a razão por um segundo, e perguntei o que ele tinha dito.
Ela ficou por alguns segundos em completa agonia. Sua mão apertava a outra. Ela tirou e colocou a aliança três vezes, mas na quarta vez, ela interrompeu o movimento, porque em seu dedo havia uma tatuagem que eu nunca havia visto. Ela estava borrada, e continha apenas uma palavra: Charlie.
Ela colocou a aliança de volta.
- Naquele dia, naquele último dia, ele me contou que tinha leucemia, e que seu tempo havia se esgotado. Com os olhos cheios de lágrimas, ele mostrou o meu nome tatuado em sua costela, e com uma caneta, ele escreveu o nome dele em meu dedo.
A história me chocou, e os pensamentos claros, a sanidade dela, também.
- Ele queria que eu lembrasse dele, por isso ele trouxe a orquídea. Depois de ter a minha promessa que eu retocaria com a caneta o seu nome em meu dedo todas as vezes que eu lembrasse dele, o meu querido Charlie, que tanto lembrava o meu amor, saiu daquele portão para nunca mais voltar.
Marie colocou seu óculos, e com esforço, se levantou da cadeira.
- Ela está atrasada. Foi nesse mês que ele morreu, e é sempre nesse mês que ela desabrocha.
Com essas palavras e sanidade, ela foi embora, e eu fiquei ali. Eu, a orquídea, e a borboleta. E pela primeira vez na vida, eu senti falta de uma pessoa que eu nunca conheci.
Marcadores: história

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Um nome, uma história
escrito em quinta-feira, 18 de outubro de 2012 às 16:51
- Ela está atrasada.
A sua voz foi engolida pelo som do vento e eu não tinha certeza se tinha deixado algo passar. Ela tinha uma personalidade muito forte, mesmo em silêncio, e era difícil acompanhá-la. Ela era diferente de todos que eu já conhecera, e eu adorava olhar os desenhos que cobriam sua pele. Naquele corpo agora desconfigurado, naquela pele enrugada, as tatuagens chamavam a atenção de todos. Elas eram lindas, coloridas, estando espalhadas pelo corpo inteiro, mas nem sempre os outros reparavam nelas por causa disso...
- Ela está atrasada - repetiu.
Marie Grasp Autun, é o seu nome. Oitenta e oito anos. Sua esquizofrenia é controlada com uma alta quantidade de remédios, mas a sua amnésia vem piorando com o tempo. Sua família? Deixou ela aqui, e nunca mais veio visitá-la. O único que costumava vir era um garoto de 18 anos, um antigo vizinho dela, que morreu faz agora três anos. Nem preciso falar o quanto ela ficou arrasada.
- Quem? - Eu perguntei.
- A orquídea.
Respirei fundo. Depois da morte de Charlie ela se tornara obcecada pela orquídea. É uma bela planta, que só da botões uma vez por ano, e dura um mês desabrochada em sua beleza. Suas pétalas são brancas, e o seu perfume, maravilhoso.
- Ela está atrasada. Os seus botões... - ela foi interrompida por uma borboleta que pousou em sua mão, em cima da tatuagem de âncora. Pude ver os seus olhos se enchendo de lágrimas. A borboleta voou e pousou na orquídea, que parasitava na árvore a qual desfrutávamos da sombra.
Marie continuou em silêncio contemplando-a, perdida talvez em algum flashback, cada vez mais frequentes.
Naquele dia ela vestia uma enorme camisa jeans, e um shorts de malha preto. Usava um chapéu de abas grandes, e um óculos gatinho repousava em seu colo. No dedo, sua aliança. E nas pernas, nos braços, estavam as tatuagens. Ah!, essas me fascinavam. Elas, mais que tudo, me contavam histórias de quem Marie havia sido. Elas eram uma porta para o passado daquela mulher, e ajudavam-a a lembrar de quem uma vez havia sido quando a amnésia atacava.
As tatuagens eram inúmeras. Uma rosa, uma cruz, uma âncora, um rosto desconhecido de mim, um castelo, algumas frases. Na sua sua orelha, os três furos não passavam despercebidos por mim. Suas cicatrizes nos joelhos sempre me despertavam curiosidade, mas ela nunca havia me contado a história. Os seus olhos eram de um azul escuro, chamativo em todo aquele contraste de pele e cabelos brancos. Me pergunto se ela tinha cabelos escuros.
- Ela está atrasada assim como ele se atrasou naquele dia - Marie continuava olhando a borboleta, os olhos vidrados, e continuou falando como se eu não estivesse sentada no banco ao lado dela - O dia está preguiçoso assim como ele estava naquele dia. E a borboleta... essa borboleta é a mesma daquele dia, onde o bater de suas asas fazia mais barulho do que a boca dele.
Ela devia estar falando de Charlie, e eu tinha recebido ordens para não deixá-la tocar nesse assunto, pois suas crises pioravam conforme sua lembrança dele melhorava.
- O dia está preguiçoso? - Eu disse inocentemente - Claro que não. Escute como os passarinhos estão cantando com vontade, e como o dia, o sol, custa a baixar.
A borboleta alçou vôo, e ela me olhou. O rosto sério.
- A orquídea devia estar florida, mas o resto do jardim devia estar morto. É injusto tudo exalar vida, menos a orquídea dele. Naquele dia... - ela esfregou a têmpora, como se fizesse forças para se lembrar - Naquele dia ele me disse algo importante.
A curiosidade me tirou a razão por um segundo, e perguntei o que ele tinha dito.
Ela ficou por alguns segundos em completa agonia. Sua mão apertava a outra. Ela tirou e colocou a aliança três vezes, mas na quarta vez, ela interrompeu o movimento, porque em seu dedo havia uma tatuagem que eu nunca havia visto. Ela estava borrada, e continha apenas uma palavra: Charlie.
Ela colocou a aliança de volta.
- Naquele dia, naquele último dia, ele me contou que tinha leucemia, e que seu tempo havia se esgotado. Com os olhos cheios de lágrimas, ele mostrou o meu nome tatuado em sua costela, e com uma caneta, ele escreveu o nome dele em meu dedo.
A história me chocou, e os pensamentos claros, a sanidade dela, também.
- Ele queria que eu lembrasse dele, por isso ele trouxe a orquídea. Depois de ter a minha promessa que eu retocaria com a caneta o seu nome em meu dedo todas as vezes que eu lembrasse dele, o meu querido Charlie, que tanto lembrava o meu amor, saiu daquele portão para nunca mais voltar.
Marie colocou seu óculos, e com esforço, se levantou da cadeira.
- Ela está atrasada. Foi nesse mês que ele morreu, e é sempre nesse mês que ela desabrocha.
Com essas palavras e sanidade, ela foi embora, e eu fiquei ali. Eu, a orquídea, e a borboleta. E pela primeira vez na vida, eu senti falta de uma pessoa que eu nunca conheci.
Marcadores: história

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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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