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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Fazia da percepção uma ciência
escrito em quarta-feira, 9 de janeiro de 2013 às 10:23
Eu ia todo dia para o parque. A máquina fotográfica pendurada no pescoço, o óculos de sol no rosto - mesmo se estivesse escuro. Não queria que ninguém visse meus olhos. Olhos pesados e vermelhos de ressaca. Olhos que só mostravam uma parte de mim que eu não queria que ninguém visse. E então eu ia sozinho, e sentava no mesmo banco. As vezes comprava um café sem açúcar ou uma revista, mas eu sempre acabava os jogando no lixo, intocáveis.
E eu ficava ali, fazendo nada, vendo tudo. Ver as pessoas passarem ali me acalmava de certa forma. A forma como elas lidavam com os problemas - gritando no celular, apontando o dedo na cara do namorado -, a forma como elas passavam o tempo ou adiavam a hora de voltar para o trabalho ou casa - jogando migalhas para os pombos, dormindo em um banco, lendo um jornal -, a forma como olhavam apaixonadas para o namorado, a forma como se vestiam. Tudo isso era um passatempo para mim. Tudo isso era uma forma de eu adiar a hora de ir para a casa. Casa. Um apartamento pequeno, recém mobiliado, ainda com xícaras guardadas em caixas, porta-retratos de infância espalhados pela cômoda, as roupas ainda na mala deixando o guarda-roupa vazio. Acho que aquilo tudo era medo do desconhecido. Aquela demora para arrumar tudo no apartamento era medo de me apegar ao lugar, e depois, não conseguir largá-lo nunca mais. Era mostrar para mim também que se eu quisesse ir embora, era só empacotar tudo mais uma vez, e partir. Fugir.
Eu peguei o isqueiro no bolso direito, e acendi o cigarro, e por um tempo, fiquei brincando com a fumaça, soltando pequenos anéis cinzas no céu gelado. A promoção de uma vida melhor, a possibilidade de ter o meu trabalho reconhecido havia me levado para uma cidade diferente, assim como eu sempre sonhara. Começar tudo do zero, mas ao mesmo tempo, continuar a viver tudo aquilo que uma vez eu sonhei em viver. E agora isso estava acontecendo, mas eu nunca me sentira tão sozinho em toda a minha vida. Eu nunca havia tido tanto tempo para escrever, mas pela primeira vez na minha vida, eu não quero escrever.
Um casal chamou a minha atenção, e antes que o homem tivesse a oportunidade de se ajoelhar, eu havia previsto o que iria acontecer. Olhos de escritor. Visão de um autor. Eu peguei a câmera, e bati fotos do casal desafortunado. Pensei no nervosismo e no medo que aquele jovem deveria estar sentindo. Na mão ele mostrava as alianças, e no seu rosto, um sorriso maquiava o medo da recusa que escapava-lhe pelos olhos, pela respiração e pela tremedeira. Era assim que eu me sentia, de certa forma. Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida. Medo de estragar a minha primeira verdadeira oportunidade de fazer os meus sonhos se realizarem. Medo de estragar tudo, e ter que voltar para minha cidade natal de mãos vazias. Sem contrato. Sem editora. Sem livro.
Bati fotos do momento em que ela disse "sim" e eles se abraçaram, rodaram e finalmente, se beijaram. Era isso que estava faltando no meu livro. Emoção. E era isso que estava faltando na minha vida. Minha mãe sempre dissera que eu perdia mais tempo trabalhando a vida dos meus personagens, do que a minha. Talvez ela estivesse certa. Afinal, eu não tinha um ano para reescrever o meu livro inteiro de novo valorizando as emoções. Todas as minhas apostas estavam naquele rascunho impresso em casa, e que amanhã, eu apresentaria.
Dei mais uma tragada e soltei a fumaça pelo nariz. As pessoas continuavam a passar na minha frente, conversando, rindo, falando no celular. Ah se elas soubessem que são elas que fazem o meu trabalho ter forma. Que eu tenho fotos delas espalhadas pela parede. A ciência da superficialidade me fascina. Você pensar e ter um pré-conceito da pessoa, e depois, descobrir que estava completamente errado. A espontaneidade me fascina. E essas pessoas, esses rostos desconhecidos, bom, eles dão forma para os meus personagens. E eu precisava pensar em uma forma para agradecê-las na minha introdução. Eu precisava ir para casa. Casa. Aquele lugar vazio e silencioso. Acho que era hora de começar a desempacotar as coisas e começar a chamar aquilo de lar.
Marcadores: história

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Fazia da percepção uma ciência
escrito em quarta-feira, 9 de janeiro de 2013 às 10:23
Eu ia todo dia para o parque. A máquina fotográfica pendurada no pescoço, o óculos de sol no rosto - mesmo se estivesse escuro. Não queria que ninguém visse meus olhos. Olhos pesados e vermelhos de ressaca. Olhos que só mostravam uma parte de mim que eu não queria que ninguém visse. E então eu ia sozinho, e sentava no mesmo banco. As vezes comprava um café sem açúcar ou uma revista, mas eu sempre acabava os jogando no lixo, intocáveis.
E eu ficava ali, fazendo nada, vendo tudo. Ver as pessoas passarem ali me acalmava de certa forma. A forma como elas lidavam com os problemas - gritando no celular, apontando o dedo na cara do namorado -, a forma como elas passavam o tempo ou adiavam a hora de voltar para o trabalho ou casa - jogando migalhas para os pombos, dormindo em um banco, lendo um jornal -, a forma como olhavam apaixonadas para o namorado, a forma como se vestiam. Tudo isso era um passatempo para mim. Tudo isso era uma forma de eu adiar a hora de ir para a casa. Casa. Um apartamento pequeno, recém mobiliado, ainda com xícaras guardadas em caixas, porta-retratos de infância espalhados pela cômoda, as roupas ainda na mala deixando o guarda-roupa vazio. Acho que aquilo tudo era medo do desconhecido. Aquela demora para arrumar tudo no apartamento era medo de me apegar ao lugar, e depois, não conseguir largá-lo nunca mais. Era mostrar para mim também que se eu quisesse ir embora, era só empacotar tudo mais uma vez, e partir. Fugir.
Eu peguei o isqueiro no bolso direito, e acendi o cigarro, e por um tempo, fiquei brincando com a fumaça, soltando pequenos anéis cinzas no céu gelado. A promoção de uma vida melhor, a possibilidade de ter o meu trabalho reconhecido havia me levado para uma cidade diferente, assim como eu sempre sonhara. Começar tudo do zero, mas ao mesmo tempo, continuar a viver tudo aquilo que uma vez eu sonhei em viver. E agora isso estava acontecendo, mas eu nunca me sentira tão sozinho em toda a minha vida. Eu nunca havia tido tanto tempo para escrever, mas pela primeira vez na minha vida, eu não quero escrever.
Um casal chamou a minha atenção, e antes que o homem tivesse a oportunidade de se ajoelhar, eu havia previsto o que iria acontecer. Olhos de escritor. Visão de um autor. Eu peguei a câmera, e bati fotos do casal desafortunado. Pensei no nervosismo e no medo que aquele jovem deveria estar sentindo. Na mão ele mostrava as alianças, e no seu rosto, um sorriso maquiava o medo da recusa que escapava-lhe pelos olhos, pela respiração e pela tremedeira. Era assim que eu me sentia, de certa forma. Eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida. Medo de estragar a minha primeira verdadeira oportunidade de fazer os meus sonhos se realizarem. Medo de estragar tudo, e ter que voltar para minha cidade natal de mãos vazias. Sem contrato. Sem editora. Sem livro.
Bati fotos do momento em que ela disse "sim" e eles se abraçaram, rodaram e finalmente, se beijaram. Era isso que estava faltando no meu livro. Emoção. E era isso que estava faltando na minha vida. Minha mãe sempre dissera que eu perdia mais tempo trabalhando a vida dos meus personagens, do que a minha. Talvez ela estivesse certa. Afinal, eu não tinha um ano para reescrever o meu livro inteiro de novo valorizando as emoções. Todas as minhas apostas estavam naquele rascunho impresso em casa, e que amanhã, eu apresentaria.
Dei mais uma tragada e soltei a fumaça pelo nariz. As pessoas continuavam a passar na minha frente, conversando, rindo, falando no celular. Ah se elas soubessem que são elas que fazem o meu trabalho ter forma. Que eu tenho fotos delas espalhadas pela parede. A ciência da superficialidade me fascina. Você pensar e ter um pré-conceito da pessoa, e depois, descobrir que estava completamente errado. A espontaneidade me fascina. E essas pessoas, esses rostos desconhecidos, bom, eles dão forma para os meus personagens. E eu precisava pensar em uma forma para agradecê-las na minha introdução. Eu precisava ir para casa. Casa. Aquele lugar vazio e silencioso. Acho que era hora de começar a desempacotar as coisas e começar a chamar aquilo de lar.
Marcadores: história

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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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