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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Hégira
escrito em terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 às 16:11
Eu tinha ficado presa naquela massa de corpos negros, apenas seguindo a multidão, tendo o meu pé pisado por sapatos recém engraxados, pisando nos calcanhares daqueles rostos que eu não conhecia. Tinha sido um erro eu ter vindo. A apaixonada. A traída. A esquecida. A única que conseguiu se despedir. A única que ouviu sua despedida.
A umidade do ar fazia os cabelos das pessoas ficarem feios e presos em seguida. Aquela umidade fazia as lágrimas escorrerem pelo rosto e pingar no chão encharcado. Nós chovíamos. Derramávamos água de nossos olhos, vazávamos de todo jeito. Questionamentos eram direcionados ao céu, xingamentos escapavam de alguém, orações eram sussurradas. E os pêsames. Palavras de conforto vindo de pessoas desconfortáveis, de pessoas que também estavam sofrendo. A mais forte das ironias nos enterros.
O céu estava escuro e carregado de nuvens, exatamente da maneira que ele gostaria que ficasse no seu enterro. Um cenário perfeito para concluir a sua poesia. Um poeta, um escritor. Aquele bastardo sabia que seu fim estava chegando, e não contara para ninguém. Sim, ele colocara várias preliminares em suas histórias, mas eu só as via com clareza agora. A única. A única que entendeu o seu pedido de socorro. A única que conseguiu ler suas despedidas perdidas nas características de seus personagens, num parágrafo sem nexo no meio de seu livro. A única que percebeu o que estava acontecendo. Um segredo. O meu segredo. E sim, eu era egoísta o suficiente para não contar ele para ninguém.
Um raio rasgou o céu fazendo meus pelinhos do braço se arrepiarem, e juntos, os guarda-chuvas foram abertos. A chuva começou a cair em seguida, sem piedade. Encharcando meu sapato, minha perna recém depilada.
O caixão ia à frente, adentrando no cemitério.
Nós éramos tantos. E o luto. O luto estava por todo lado. Era aquela luta para nos mantermos firmes, mas nós vazávamos, escorríamos juntos com a enxurrada, não engolíamos a verdade assim como a grama não conseguia engolir a enorme quantidade de água que caía em cima dela. Maquiagens manchadas, lenços encharcados, mãos vazias.
Aquele toque do telefone, aquela angustia, aquelas unhas roídas naqueles segundos que ele não atendeu o maldito aparelho ainda parece estar acontecendo, ali mesmo. Posso ouvir com clareza a voz dele me dizendo que eu descobri. E posso com clareza ouvir os meus gritos, os meus soluços, o meu desespero. Ele não me contava onde estava. Ele não me dizia nada. Apenas repetia, enquanto eu berrava e andava sem rumo pela casa, que ele queria morrer sozinho. Que havia sido melhor assim. Ele tinha feito tudo o que queria. Tinha se apaixonado, tinha ajudado, tinha sido um exemplo, e mais um monte de outras coisas que não me importavam naquele momento. O que me importava era a vida dele, que a cada palavra parecia se espairecer. Leucemia. Maldita leucemia. Você levou meu amado. Você levou meu melhor amigo. Amigo que escondera de mim, e de todos os outros a verdade.
- Fica comigo – eu implorei – Não desligue! Prometa que vai ficar comigo até o fim.
Ele concordou, e durante a noite inteira eu conversei com ele. Relembrei todos os aniversários que passamos juntos, o ensino médio, o baile de formatura, o nosso beijo no ano novo, e o outro em Março. Desabafei como doeu deixá-lo e ir para outro continente. Disse como o amava. E ele disse como que me amava.
O caixão parou e as pessoas se aglomeraram em volta de seu túmulo. Sua cova estava aberta, e seu nome já estava entalhado na pedra. Um padre disse algumas palavras. A mãe dele transbordava, já seu pai, estava esvaziado. A chuva não conseguia abafar os lamentos, os murmúrios, e eu tive vontade de tampar meus ouvidos.
Seu corpo desceu no chão, e eu sabia que ele já estava com os lábios roxos, a pele gelada. Daqui a pouco os vermes o encontrariam, sua pele seria castigada, seu corpo entraria em decomposição. Seu cabelo loiro perderia o brilho, seus ossos virariam pó. Isso aconteceria com o meu amado. Meu amado, criado do pó, voltando ao pó. Transformando-me ao mesmo tempo em outra pessoa. O fim, o começo de alguém. Aqui, uma nova vida estava começando, enquanto outra terminava, porque eu não aceitava a idéia de seguir com a mesma vida sem ele. Não. Eu precisaria começar outra.
A lama foi derrubada em cima do cadáver. Traída. Arrasada. Porém, nova. Mas antes de seguir com a minha vida, de fugir desse continente, eu precisava fazer mais uma coisa. Eu precisava desligar aquele telefone que eu deixei fora do gancho em casa no momento que ele parou de me responder, e eu pude ouvir o seu último suspiro. Suspiro só meu. Só meu. Marcadores: história

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Hégira
escrito em terça-feira, 19 de fevereiro de 2013 às 16:11
Eu tinha ficado presa naquela massa de corpos negros, apenas seguindo a multidão, tendo o meu pé pisado por sapatos recém engraxados, pisando nos calcanhares daqueles rostos que eu não conhecia. Tinha sido um erro eu ter vindo. A apaixonada. A traída. A esquecida. A única que conseguiu se despedir. A única que ouviu sua despedida.
A umidade do ar fazia os cabelos das pessoas ficarem feios e presos em seguida. Aquela umidade fazia as lágrimas escorrerem pelo rosto e pingar no chão encharcado. Nós chovíamos. Derramávamos água de nossos olhos, vazávamos de todo jeito. Questionamentos eram direcionados ao céu, xingamentos escapavam de alguém, orações eram sussurradas. E os pêsames. Palavras de conforto vindo de pessoas desconfortáveis, de pessoas que também estavam sofrendo. A mais forte das ironias nos enterros.
O céu estava escuro e carregado de nuvens, exatamente da maneira que ele gostaria que ficasse no seu enterro. Um cenário perfeito para concluir a sua poesia. Um poeta, um escritor. Aquele bastardo sabia que seu fim estava chegando, e não contara para ninguém. Sim, ele colocara várias preliminares em suas histórias, mas eu só as via com clareza agora. A única. A única que entendeu o seu pedido de socorro. A única que conseguiu ler suas despedidas perdidas nas características de seus personagens, num parágrafo sem nexo no meio de seu livro. A única que percebeu o que estava acontecendo. Um segredo. O meu segredo. E sim, eu era egoísta o suficiente para não contar ele para ninguém.
Um raio rasgou o céu fazendo meus pelinhos do braço se arrepiarem, e juntos, os guarda-chuvas foram abertos. A chuva começou a cair em seguida, sem piedade. Encharcando meu sapato, minha perna recém depilada.
O caixão ia à frente, adentrando no cemitério.
Nós éramos tantos. E o luto. O luto estava por todo lado. Era aquela luta para nos mantermos firmes, mas nós vazávamos, escorríamos juntos com a enxurrada, não engolíamos a verdade assim como a grama não conseguia engolir a enorme quantidade de água que caía em cima dela. Maquiagens manchadas, lenços encharcados, mãos vazias.
Aquele toque do telefone, aquela angustia, aquelas unhas roídas naqueles segundos que ele não atendeu o maldito aparelho ainda parece estar acontecendo, ali mesmo. Posso ouvir com clareza a voz dele me dizendo que eu descobri. E posso com clareza ouvir os meus gritos, os meus soluços, o meu desespero. Ele não me contava onde estava. Ele não me dizia nada. Apenas repetia, enquanto eu berrava e andava sem rumo pela casa, que ele queria morrer sozinho. Que havia sido melhor assim. Ele tinha feito tudo o que queria. Tinha se apaixonado, tinha ajudado, tinha sido um exemplo, e mais um monte de outras coisas que não me importavam naquele momento. O que me importava era a vida dele, que a cada palavra parecia se espairecer. Leucemia. Maldita leucemia. Você levou meu amado. Você levou meu melhor amigo. Amigo que escondera de mim, e de todos os outros a verdade.
- Fica comigo – eu implorei – Não desligue! Prometa que vai ficar comigo até o fim.
Ele concordou, e durante a noite inteira eu conversei com ele. Relembrei todos os aniversários que passamos juntos, o ensino médio, o baile de formatura, o nosso beijo no ano novo, e o outro em Março. Desabafei como doeu deixá-lo e ir para outro continente. Disse como o amava. E ele disse como que me amava.
O caixão parou e as pessoas se aglomeraram em volta de seu túmulo. Sua cova estava aberta, e seu nome já estava entalhado na pedra. Um padre disse algumas palavras. A mãe dele transbordava, já seu pai, estava esvaziado. A chuva não conseguia abafar os lamentos, os murmúrios, e eu tive vontade de tampar meus ouvidos.
Seu corpo desceu no chão, e eu sabia que ele já estava com os lábios roxos, a pele gelada. Daqui a pouco os vermes o encontrariam, sua pele seria castigada, seu corpo entraria em decomposição. Seu cabelo loiro perderia o brilho, seus ossos virariam pó. Isso aconteceria com o meu amado. Meu amado, criado do pó, voltando ao pó. Transformando-me ao mesmo tempo em outra pessoa. O fim, o começo de alguém. Aqui, uma nova vida estava começando, enquanto outra terminava, porque eu não aceitava a idéia de seguir com a mesma vida sem ele. Não. Eu precisaria começar outra.
A lama foi derrubada em cima do cadáver. Traída. Arrasada. Porém, nova. Mas antes de seguir com a minha vida, de fugir desse continente, eu precisava fazer mais uma coisa. Eu precisava desligar aquele telefone que eu deixei fora do gancho em casa no momento que ele parou de me responder, e eu pude ouvir o seu último suspiro. Suspiro só meu. Só meu. Marcadores: história

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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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