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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Uma vez num litoral
escrito em quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013 às 15:23
Véu, do latim velum, pano, cortina, máscara. O que serve para cobrir ou encobrir. Trevas, amargura.
O vento fazia as janelas sussurrarem, as árvores dançarem, o frio se aproximar. A chuva batia violentamente no telhado, no chão. As roupas, deixadas no varal, balançavam como se estivessem vestidas. A água da piscina que quase transbordava formava pequenas ondas. Uma bóia saiu voando e foi parar no quintal do vizinho. A empregada olhava sua senhora de longe, de baixo do batente. Aquela tempestade, junto com a escuridão, despertara algo sombrio nela. E a megera apenas esperava, vigiava de longe, esperando a verdade ser trazida à tona.
A madame vestia uma saia cinza e um blazer verde musgo. Nos pés, um sapato com um salto pequeno. Roupa desconfortável para ficar em casa, mas ela sempre se vestia assim. E invísivel, mas presente, usava um véu para o luto. Um véu que ofuscava o brilho de seus olhos, o contorno de sua boca. Um véu que descia até seus pés, inchados. Um véu que se estendia da janela, onde estava postada, atravessando toda a sala, até chegar na cozinha. Ela deixava um rastro por onde passava, ela e seu véu transparente, rendado e negro.
Nas mãos, usava uma luva negra. Uma luva que tentava em vão esquentar suas mãos frias, que em vão tentava aquecer como a mão dele a aquecia.
A proletária sabia pouco da história dela. Sabia pouco do que ela sentia, e só as vezes esbarrava em algumas pistas. A comida inteira jogada no lixo, a cartela de remédio acabando mais rápido do que o normal, a fita do casamento no videocassete, mais um quadro pendurado na parede. Mas em todos esses anos dois anos que trabalhara para ela, nunca tinha deixado de perceber aquele véu, atrapalhando a senhora de andar, de enxergar, de falar.
Aquela casa era grande demais para ela, e consequentemente, vazia demais. Tinha um ar de abandono, mesmo a prataria sendo polida toda semana, a poeira sendo removida das prateleiras, o chão sendo varrido e encerado. A vida abandonara aquele lugar. O cheiro de comida pronta não era o suficiente para transformar aquilo num lar. A tv ligada não era o suficiente para preencher o silêncio.
- As ondas Penny, você pode vê-las? - ela perguntou, sua voz chegando abafada até a empregada. Esta observou sua senhora, com os braços cruzados e de costas para ela, olhando lá para fora, o rosto quase colado no vidro de tão perto que ela estava da imensa janela.
- Sim, eu as vejo - ela respondeu. A piscina agora transbordava sua água para fora.
- Eu lembro de ondas assim. Meu marido gostava delas. Fazia eu ficar até de noite no litoral, só para vermos a transformação do mar depois do crepúsculo, e só saíamos da areia quando a maré alta nos alcançava - era a primeira vez que ela falava sobre o marido.
Um relâmpago iluminou o dia por menos de um segundo. Ela se virou para a empregada, e lá estava, o véu. Hoje mais pesado e vulgar do que os outros dias. Sua renda mal permitia ver o contorno de seu rosto.
Nós não estamos no litoral estamos? Eu queria que ele visse essas ondas, queria levá-lo até ali perto, só para vermos melhor, para eu poder sentir... - ela suspirou - Alguma coisa. Preciso de alguma coisa.
A empregada não disse nada.
- Nós estamos no litoral? - ela perguntou de novo.
- Não senhora.
O véu pareceu escurecer diante dos olhos da serviçal. A madame passou a mão em seu blazer e voltou a encarar as ondas, a realidade. Agora ela não via mais praia, agora ela não via mais ondas, agora ela somente via quase até que palpável a saudade. No vento, na chuva e nas árvores ela via o mesmo rosto: o dele.
Marcadores: história

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Uma vez num litoral
escrito em quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013 às 15:23
Véu, do latim velum, pano, cortina, máscara. O que serve para cobrir ou encobrir. Trevas, amargura.
O vento fazia as janelas sussurrarem, as árvores dançarem, o frio se aproximar. A chuva batia violentamente no telhado, no chão. As roupas, deixadas no varal, balançavam como se estivessem vestidas. A água da piscina que quase transbordava formava pequenas ondas. Uma bóia saiu voando e foi parar no quintal do vizinho. A empregada olhava sua senhora de longe, de baixo do batente. Aquela tempestade, junto com a escuridão, despertara algo sombrio nela. E a megera apenas esperava, vigiava de longe, esperando a verdade ser trazida à tona.
A madame vestia uma saia cinza e um blazer verde musgo. Nos pés, um sapato com um salto pequeno. Roupa desconfortável para ficar em casa, mas ela sempre se vestia assim. E invísivel, mas presente, usava um véu para o luto. Um véu que ofuscava o brilho de seus olhos, o contorno de sua boca. Um véu que descia até seus pés, inchados. Um véu que se estendia da janela, onde estava postada, atravessando toda a sala, até chegar na cozinha. Ela deixava um rastro por onde passava, ela e seu véu transparente, rendado e negro.
Nas mãos, usava uma luva negra. Uma luva que tentava em vão esquentar suas mãos frias, que em vão tentava aquecer como a mão dele a aquecia.
A proletária sabia pouco da história dela. Sabia pouco do que ela sentia, e só as vezes esbarrava em algumas pistas. A comida inteira jogada no lixo, a cartela de remédio acabando mais rápido do que o normal, a fita do casamento no videocassete, mais um quadro pendurado na parede. Mas em todos esses anos dois anos que trabalhara para ela, nunca tinha deixado de perceber aquele véu, atrapalhando a senhora de andar, de enxergar, de falar.
Aquela casa era grande demais para ela, e consequentemente, vazia demais. Tinha um ar de abandono, mesmo a prataria sendo polida toda semana, a poeira sendo removida das prateleiras, o chão sendo varrido e encerado. A vida abandonara aquele lugar. O cheiro de comida pronta não era o suficiente para transformar aquilo num lar. A tv ligada não era o suficiente para preencher o silêncio.
- As ondas Penny, você pode vê-las? - ela perguntou, sua voz chegando abafada até a empregada. Esta observou sua senhora, com os braços cruzados e de costas para ela, olhando lá para fora, o rosto quase colado no vidro de tão perto que ela estava da imensa janela.
- Sim, eu as vejo - ela respondeu. A piscina agora transbordava sua água para fora.
- Eu lembro de ondas assim. Meu marido gostava delas. Fazia eu ficar até de noite no litoral, só para vermos a transformação do mar depois do crepúsculo, e só saíamos da areia quando a maré alta nos alcançava - era a primeira vez que ela falava sobre o marido.
Um relâmpago iluminou o dia por menos de um segundo. Ela se virou para a empregada, e lá estava, o véu. Hoje mais pesado e vulgar do que os outros dias. Sua renda mal permitia ver o contorno de seu rosto.
Nós não estamos no litoral estamos? Eu queria que ele visse essas ondas, queria levá-lo até ali perto, só para vermos melhor, para eu poder sentir... - ela suspirou - Alguma coisa. Preciso de alguma coisa.
A empregada não disse nada.
- Nós estamos no litoral? - ela perguntou de novo.
- Não senhora.
O véu pareceu escurecer diante dos olhos da serviçal. A madame passou a mão em seu blazer e voltou a encarar as ondas, a realidade. Agora ela não via mais praia, agora ela não via mais ondas, agora ela somente via quase até que palpável a saudade. No vento, na chuva e nas árvores ela via o mesmo rosto: o dele.
Marcadores: história

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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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