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A AUTORA


Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)

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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)

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Fugere urbem
escrito em quinta-feira, 14 de março de 2013 às 19:24


Uma história dedicada para o Manoel Abrantes que faz aniversário amanhã. É difícil escrever uma história para um leitor tão crítico e tão apaixonado por grandes nomes da literatura, mas eu tentei. Parabéns. Tudo de bom pra você. 

- Você fugiria comigo?
Eu quase consegui ver essa frase tomar forma bem diante dos meus olhos. Cada letra dessas três palavras se materializando no ar na fonte Verdana, tamanho 76, num verde limão, ou até num laranja cenoura. Elas flutuavam em volta de mim, quase que tirando uma da minha cara, quase gritando que não adiantava me lamentar pelas palavras que escaparam de meus lábios e agora estavam soltas no vento, ecoando no meu ouvido. E no dela. Não podia fazer nada para apagá-las. Porque nesse instante, eu assisti com horror elas pousarem nos pés dela. Pés descalços e com as unhas pintadas de preto. Pés que calçavam pelo menos uns três números a menos que o meu.
Ela riu.
Meu corpo tremeu junto com o som da risadinha dela. Como eu preferia que tivesse sido uma gargalhada. Uma gargalhada longa, alta e ridícula, porque aí significaria que ela tinha achado que eu estava brincando. Que era só um sonho ridículo, mesmo sendo exatamente isso, para falar bem a verdade. Mas não. Ela riu baixinho, uma risada meio até tímida, que considerava o que eu estava falando. Que pensava sobre o que eu tinha acabado de deixar escapar. Que tentava descobrir o motivo de eu ter dito aquilo, a verdade por trás daquelas três malditas palavras.
- O que você quer dizer com isso?
Eu olhei para ela. Pele clara, olhos verdes e cabelo loiro. Nariz delicado e cílios enormes. Ela estava debruçada sob seu livro, o tênis jogado no canto da sala. Seus pés roçavam os pelos do tapete e seu cabelo estava jogado só de um lado. Ela vestia uma camiseta minha, pois alguns minutos atrás eu tinha derrubado molho de macarrão nela. Ela estava linda. Ela era minha amiga. Só.
- Nada – respondi.
Voltei para meu caderno, e continuei desenhando no lugar onde deveria estar uma redação com valor de vinte pontos, com prazo para amanhã. Era um campo. O sol no alto iluminava a relva baixa, as pedras no canto, um cordeiro pastando no outro. Um lago calmo e cristalino tomava o meu tempo naquele instante. Tentava dar impressão de transparência, de movimento. Desenhei uma vitória regia boiando nele, e um sapo espiando na margem. Quase pude sentir o cheiro da água doce e o som da água batendo nas pedras. Fugir. Parecia uma ideia tão tola, tão irreal e distante, mas a melhor que eu já tivera. E com ela.
- Você vai continuar me ignorando? – ouvi ela perguntar.
Ela agora estava ereta, com as costas apoiada no sofá do outro lado da sala. O livro estava fechado próximo de sua perna. Ela queria explicações. Eu estava numa fria.
- Se você quer falar sobre aquilo, sim, eu vou!
Ela passou a mão no cabelo, e o prendeu num coque alto. Um fio sobrou e ela o enrolou no penteado, sem cerimônia.
- Então você não vai se importar de eu ficar o resto da tarde te encarando – ela retrucou.
- Não – eu menti, e então voltei para o meu desenho, mas eu não consegui continuar com a água, não consegui acrescentar nuvens no céu e brincar com as sombras. Porque ela me encarava. Muito.
Fiquei com raiva de saber que eu perderia mais uma vez. Eu nunca conseguia ganhar uma briga com ela. Nunca.
Fechei o caderno.
- Fugir. Fazer as malas, não avisar ninguém, encher o tanque do carro e pegar tudo o que tem na poupança e só deixar um bilhete na sala de jantar. Sem celular, com um mapa e uma câmera fotográfica – olhei para o papel de parede xadrez atrás dela, sonhador - Parar o carro na estrada quando quiser, mesmo se for só para ver o por do sol, ou para pegar uma manga no pé. Dormir em albergues, ou até mesmo no carro.
- Brincar numa fonte de uma catedral e alimentar as pombas – ela acrescentou.
Dei uma risada.
- Ver uma chuva de meteoros no capô do carro – continuei.
- Tomar banho de chuva no meio da rua.
- Brincar no carrinho do supermercado e na esteira rolante do shopping.
- Passar horas numa biblioteca.
- Pegar um cachorro da rua, fazer um trabalho voluntário, dançar com um artista de rua.
Nossas vozes vibravam de empolgação. Eu saí da poltrona e me ajoelhei na frente dela, o entusiasmo fazendo com que eu pegasse sua mão.
- Ir num show, mesmo sem conhecer o artista.
Concordei.
- Fazer um vídeo dentro de uma igreja.
- Jogar bola com as crianças da rua.
- Visitar uma favela.
Nós riamos. Os dois ajoelhados, as mãos dadas, os olhos brilhando. As palavras flutuavam ao nosso redor em caixa-alta. Estas tinham a dignidade de uma promessa, o encanto de uma declaração. Eram sonhos. Nossos sonhos.
- Não se importar com as estradas à pegar – eu disse.
- Muito menos com o caminho pra voltar.
- Uma viagem só de ida.
- Sem guardar dinheiro para a volta, muito menos energia.
Nossa respiração estava alterada, o sorriso rasgando nossas bochechas.
Aos poucos, as palavras começaram a cair no chão. As mãos dela se soltaram das minhas, e ela se deixou cair no tapete. O sorriso tinha sumido.
- Nós não podemos dirigir.
Quatro palavras. Quatro palavras gigantescas de um vermelho vivo que ficaram impressas no papel de parede xadrez. Como sangue.
Nós não podíamos dirigir. Nós não podíamos fugir.
Deixei meu corpo escorregar no chão, até minhas costas tocarem o piso gelado.
- Sim.
Ignorei-a.
- Sim – ela repetiu.
- Sim o que? – eu perguntei um pouco irritado.
- Sim – ela disse baixinho. Sim, eu fugiria com você.
                E no fim, era isso o que importava.

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