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A AUTORA


Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)

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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)

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Locus amenos
escrito em sábado, 16 de março de 2013 às 09:13


Tinha que ser o crepúsculo. E era.
Marie ainda estava de castigo por ter pintado o seu cabelo louro de azul, trancada em sua casa. O engraçado era que o problema não era tê-lo pintado dessa cor, mas sim ter pintado sem ter pedido para o seu pai. Azul. Seus fios agora tinham a cor do céu num dia ensolarado. Não aquele azul escuro, cor de capa de caderno da terceira série do Ensino Fundamental. Não. Seu cabelo agora combinava com os seus olhos, tendo a cor de um azul não muito claro, nem muito escuro. Aquele tal do Azul Columbia.
Podia ser diferente, mas tinha ficado lindo. Sua pele clara, seus cílios loiros e suas sardas completavam o pacote. Sem dizer que seu cabelo era escorrido até a cintura.
Ela tinha passado o dia inteiro sozinha, fazendo tudo, e fazendo nada. Um concerto tocava de seu aparelho de som e a casa já começava a ficar escura. Era o crepúsculo. Os últimos minutos que ela teria de paz. Os últimos minutos de seu dia que ela poderia ficar sozinha vestindo pijama, ou até mesmo só as roupas de baixo, tomando a coca diretamente do bico ou comendo Nescau puro direto do pote. Eram os últimos minutos que ela tinha para cantar a plenos pulmões a sua música preferida, ou até mesmo para chorar. E era isso que o crepúsculo significava, de certa forma. O final de algo, o começo de outro. E nesse caso, o final de seu lugar ameno, de seu refúgio, o lugar onde só ela existia, ela e seus problemas, ela e suas lágrimas, ela e suas risadas, ela e a privacidade; e o começo da bagunça, dos favores a serem feitos, às compras que deveriam ser postas na mesa e guardadas em seguida, ao quarto que deveria ser arrumado, à roupa que deveria ser estendida, ao horário de dormir imposto. Era o fim da paz. Era o fim de seu descanso.
O crepúsculo sempre a lembrava disso. Não importava quão bom o dia tenha sido, ou quão horrível, ele sempre acabava. Sempre. E uma nova aurora sempre chegava em seguida, trazendo novas promessas, trazendo novas oportunidades. Era assim que as coisas funcionavam. Não importava chorar, não importava se espernear, as coisas sempre começavam, terminavam e recomeçavam.
Marie estava deitada no chão, as costas nuas em contato com o piso gelado, seu cabelo Azul Columbia espalhado nele como cascata, o chips aberto do seu lado e os olhos cerrados, fitando os veios da madeira no teto. Uma mancha iluminada no verniz lá em cima ofuscava sua visão.
 A cortina estava aberta.
Ela observava como o tempo fazia as sombras mudarem de lugar, imaginando o sol lá fora descendo até tocar o horizonte, seus raios lambendo uma última vez as copas das árvores. As nuvens deveriam estar laranja ou rosa, e o céu não estaria azul, mas sim de um pêssego-laranja. Os minutos mais mágicos do dia. As tonalidades mais difíceis de serem captadas por um pintor. O cenário mais difícil de ser descrito por um autor.
Ela levantou os braços e deixou os últimos raios que entravam na casa tocá-la. Seu braço claro como o leite, ficou Amarelo Pêssego, igual a cor da parede do escritório de seu pai. Ela brincou com os dedos, examinou a unha, os raios iluminando cada cutícula mal feita, cada detalhe de sua pele. E ao som de sua música, observou seu braço ser tomado pela sombra lentamente. Um suspiro escapou-lhe pela boca, e um último fôlego foi tomado.
Lentamente, ela sentou no chão e olhou para a janela lá em cima, do último andar, a tempo de ver o último raio ir embora. Mas não para sempre. Ele estaria de volta na aurora, junto com o primeiro canto dos pássaros e o som de seu despertador. 

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