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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Brincando de João e Maria
escrito em sábado, 6 de abril de 2013 às 08:40
- Eu quero ir embora - ela resmungou. A voz saiu abafada e manhosa. Ela estava deitada sob seus cadernos, o arame de sua apostila marcando seu rosto moreno; seu tênis desamarrado, seu cabelo bagunçado.
- Você não é a única - ele respondeu, sem tirar os olhos do castelo que desenhava direto na carteira.
- Não! Você não me entendeu. Eu quero mesmo ir embora.
Ele não respondeu.
- Como eu queria poder sair daqui e ir para a minha cama. Fugir de tudo. Dos conteúdos, das provas...
- Da recuperação - se intrometeu a outra.
O garoto riu. Alan era o seu nome.
- Eu poderia cantar para você dormir - foi o que ele disse enquanto a porta de seu castelo recebia detalhes.
- Podia - ela disse sonhando.
Manuela era o seu nome.
- Então eu a cobriria e apagaria a luz - ele continuou.
- Sairia na ponta do pé.
- E deixaria a porta do quarto um pouco aberta. A luz do corredor acesa.
Ela sorriu. A professora falava algo parecido com pretérito imperfeito do subjuntivo, se é que fosse isso mesmo. Uma porcaria qualquer que eles nunca usariam na vida deles. Deles.
- E de manhã? - ela sussurrou, seus olhos quase cedendo ao cansaço, seu cérebro apenas registrando o que ele dizia. A voz da professora agora se misturava com a dos outros alunos.
- Eu faria chocolate quente para você. Ou chá. O que você prefere?
- Chocolate quente.
- Então seria isso. Chocolate quente e um bilhete.
- Teria cookies é claro.
Ele agora interrompeu seu desenho. A aula havia ficado interessante.
- Eu estaria na feira.
Ela deu um risinho fraco, ele continuou.
- Compraria um rabanete, algumas verduras...
- E um pastel - a outra se intrometeu novamente.
- Sim, um pastel - ela concordou.
- Do que? - Alan perguntou.
- Queijo - as duas falaram.
- Então queijo seria!
A professora chamou a atenção deles mesmo eles sendo aqueles que conversavam mais discretamente. Sentados em último lugar na fileira, no canto da sala, algumas carteiras vazias à frente deles. Dos três. Dois dois. Ambos artistas, ambos desconhecidos, ambos sonhadores.
- Já volto.
A outra levantou-se da carteira e os deixou sozinhos.
- Eu gosto daquelas casas com só dois cômodos sabe? - ela disse. Um banheiro e um grande salão apenas.
- Perfeito!
- Com uma parede preta e muitos quadros!
- Um carpete.
- E uma geladeira vermelha - ela quase gritou.
Os dois riram baixinho.
- Teria uma parede cheia de livros, e uma máquina de escrever num canto - ele completou.
- E todas as suas vitrolas estariam lá.
- É claro que estariam.
- Não podemos nos esquecer dos vários pufs que nós teremos.
- E o sofá azul.
- E a banheira!
- Do que vocês estão falando? - ela tinha voltado.
- Da nossa casa - respondeu Manu.
- Como que vai ser?
- Tipo um loft - disseram os dois juntos.
- Com aquelas cortinas como divisórias?
Os dois se entreolharam.
- Pode ser! - eles reponderam, dando de ombros.
A professora chamou a atenção da sala inteira dessa vez, e Alan voltou a desenhar, Manuela a se deitar e a outra encostou a cabeça na parede com as mãos no bolso, seu óculos escorregando de seu nariz. A coisa ainda estava longe de acabar.
- O que nós vamos fazer de tarde? - ela perguntou com os olhos fechados.
- Eu vou te levar numa biblioteca, mas depois nós vamos ter que voltar para casa porque você terá uma sessão de autógrafos de noite.
- Creio então que essa coisa minha de escrever dará certo.
- E como!
Ela sorriu.
- E você?
- Diga-me você - ele respondeu.
- Ok - pausa - Você se formará em artes cênicas e suas peças começarão a ganhar grande destaque na região. Um livro seu com as suas melhores será lançado. Você será o novo Caio Fernando de Abreu.
- Soa muito bem para mim.
- E você dará aulas também, em faculdades.
- Soa perfeito para mim.
Ela riu baixinho. Ele agora tinha parado novamente de desenhar.
- Eu vou poder fumar algumas vezes? - ele perguntou.
- Vai. Até charuto.
- Cachimbo também é claro.
- Claro.
- A altona e o baixinho - sussurrou a outra, de olhos fechados.
Era verdade, mas eles não ligaram.
- E depois de seus autógrafos? Eu não vou querer ir para casa - ele disse.
- Não. Por isso depois de nós jantarmos em um restaurante, nós vamos para uma praça...
- A praça das antenas - ele interrompeu.
- Isso! E nós vamos ficar lá a noite inteira, conversando, brincando, olhando as estrelas. Nós vamos até pichar alguma poesia na rua.
- Ficaremos lá até dormir - ele sussurrou.
- Sim.
- E você acordaria no outro dia na cama, com um chocolate quente e um bilhete do seu lado.
- Como os filmes.
- Como os apaixonados de verdade - ele a corrigiu.
- Exatamente.
- E eu nem gostaria de chocolate quente.
Ela suspirou.
- Você prepararia ele para mim todas as manhãs, mesmo não gostando dele- ela disse.
- Sim, porque isso é o amor.
- Fazer coisas pelos outros, mesmo você não gostando.
- Exatamente.
Os dois ficaram em silêncio, pensando agora não mais em conjunto. Os devaneios parecendo flutuar em volta dos dois.
Ela abriu os olhos e olhou o conteúdo no quadro. Ele voltou para seu castelo. A outra havia adormecido.
Um silêncio estranho tomou conta da sala.
Um silêncio estranho tomou conta de seus corações.
Chame-os como quiser. Alan, Manoela, a outra. Dois sonhadores. Dois artistas. E a amiga. Três personagens em falta nesse mundo.
- Ei - ele disse.
Ela olhava o quadro.
- Eu poderia ter um buldogue? Marcadores: história

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Brincando de João e Maria
escrito em sábado, 6 de abril de 2013 às 08:40
- Eu quero ir embora - ela resmungou. A voz saiu abafada e manhosa. Ela estava deitada sob seus cadernos, o arame de sua apostila marcando seu rosto moreno; seu tênis desamarrado, seu cabelo bagunçado.
- Você não é a única - ele respondeu, sem tirar os olhos do castelo que desenhava direto na carteira.
- Não! Você não me entendeu. Eu quero mesmo ir embora.
Ele não respondeu.
- Como eu queria poder sair daqui e ir para a minha cama. Fugir de tudo. Dos conteúdos, das provas...
- Da recuperação - se intrometeu a outra.
O garoto riu. Alan era o seu nome.
- Eu poderia cantar para você dormir - foi o que ele disse enquanto a porta de seu castelo recebia detalhes.
- Podia - ela disse sonhando.
Manuela era o seu nome.
- Então eu a cobriria e apagaria a luz - ele continuou.
- Sairia na ponta do pé.
- E deixaria a porta do quarto um pouco aberta. A luz do corredor acesa.
Ela sorriu. A professora falava algo parecido com pretérito imperfeito do subjuntivo, se é que fosse isso mesmo. Uma porcaria qualquer que eles nunca usariam na vida deles. Deles.
- E de manhã? - ela sussurrou, seus olhos quase cedendo ao cansaço, seu cérebro apenas registrando o que ele dizia. A voz da professora agora se misturava com a dos outros alunos.
- Eu faria chocolate quente para você. Ou chá. O que você prefere?
- Chocolate quente.
- Então seria isso. Chocolate quente e um bilhete.
- Teria cookies é claro.
Ele agora interrompeu seu desenho. A aula havia ficado interessante.
- Eu estaria na feira.
Ela deu um risinho fraco, ele continuou.
- Compraria um rabanete, algumas verduras...
- E um pastel - a outra se intrometeu novamente.
- Sim, um pastel - ela concordou.
- Do que? - Alan perguntou.
- Queijo - as duas falaram.
- Então queijo seria!
A professora chamou a atenção deles mesmo eles sendo aqueles que conversavam mais discretamente. Sentados em último lugar na fileira, no canto da sala, algumas carteiras vazias à frente deles. Dos três. Dois dois. Ambos artistas, ambos desconhecidos, ambos sonhadores.
- Já volto.
A outra levantou-se da carteira e os deixou sozinhos.
- Eu gosto daquelas casas com só dois cômodos sabe? - ela disse. Um banheiro e um grande salão apenas.
- Perfeito!
- Com uma parede preta e muitos quadros!
- Um carpete.
- E uma geladeira vermelha - ela quase gritou.
Os dois riram baixinho.
- Teria uma parede cheia de livros, e uma máquina de escrever num canto - ele completou.
- E todas as suas vitrolas estariam lá.
- É claro que estariam.
- Não podemos nos esquecer dos vários pufs que nós teremos.
- E o sofá azul.
- E a banheira!
- Do que vocês estão falando? - ela tinha voltado.
- Da nossa casa - respondeu Manu.
- Como que vai ser?
- Tipo um loft - disseram os dois juntos.
- Com aquelas cortinas como divisórias?
Os dois se entreolharam.
- Pode ser! - eles reponderam, dando de ombros.
A professora chamou a atenção da sala inteira dessa vez, e Alan voltou a desenhar, Manuela a se deitar e a outra encostou a cabeça na parede com as mãos no bolso, seu óculos escorregando de seu nariz. A coisa ainda estava longe de acabar.
- O que nós vamos fazer de tarde? - ela perguntou com os olhos fechados.
- Eu vou te levar numa biblioteca, mas depois nós vamos ter que voltar para casa porque você terá uma sessão de autógrafos de noite.
- Creio então que essa coisa minha de escrever dará certo.
- E como!
Ela sorriu.
- E você?
- Diga-me você - ele respondeu.
- Ok - pausa - Você se formará em artes cênicas e suas peças começarão a ganhar grande destaque na região. Um livro seu com as suas melhores será lançado. Você será o novo Caio Fernando de Abreu.
- Soa muito bem para mim.
- E você dará aulas também, em faculdades.
- Soa perfeito para mim.
Ela riu baixinho. Ele agora tinha parado novamente de desenhar.
- Eu vou poder fumar algumas vezes? - ele perguntou.
- Vai. Até charuto.
- Cachimbo também é claro.
- Claro.
- A altona e o baixinho - sussurrou a outra, de olhos fechados.
Era verdade, mas eles não ligaram.
- E depois de seus autógrafos? Eu não vou querer ir para casa - ele disse.
- Não. Por isso depois de nós jantarmos em um restaurante, nós vamos para uma praça...
- A praça das antenas - ele interrompeu.
- Isso! E nós vamos ficar lá a noite inteira, conversando, brincando, olhando as estrelas. Nós vamos até pichar alguma poesia na rua.
- Ficaremos lá até dormir - ele sussurrou.
- Sim.
- E você acordaria no outro dia na cama, com um chocolate quente e um bilhete do seu lado.
- Como os filmes.
- Como os apaixonados de verdade - ele a corrigiu.
- Exatamente.
- E eu nem gostaria de chocolate quente.
Ela suspirou.
- Você prepararia ele para mim todas as manhãs, mesmo não gostando dele- ela disse.
- Sim, porque isso é o amor.
- Fazer coisas pelos outros, mesmo você não gostando.
- Exatamente.
Os dois ficaram em silêncio, pensando agora não mais em conjunto. Os devaneios parecendo flutuar em volta dos dois.
Ela abriu os olhos e olhou o conteúdo no quadro. Ele voltou para seu castelo. A outra havia adormecido.
Um silêncio estranho tomou conta da sala.
Um silêncio estranho tomou conta de seus corações.
Chame-os como quiser. Alan, Manoela, a outra. Dois sonhadores. Dois artistas. E a amiga. Três personagens em falta nesse mundo.
- Ei - ele disse.
Ela olhava o quadro.
- Eu poderia ter um buldogue? Marcadores: história

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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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