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A AUTORA
Allana Gonzalez
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que... (+)
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Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle... (+)
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Carpe diem
escrito em quinta-feira, 9 de maio de 2013 às 16:11
- Leve isso para os seus avós - eu sussurrei imitando minha mãe, o canto da boca repuxado , a testa franzida.
Desajeitada abri o pequeno portão da única casa de madeira daquela rua e empurrei a bicicleta para dentro, deixando-a cair no gramado levando consigo um broto de pé-de-leão. O tempo abafado fazia meu cabelo grudar em meu pescoço.
- Ops - disse indiferente, deixando a planta caída, esta observando-me até sumir pela porta, entrando numa confusão de fumaça de charuto cubano, quadros que me observavam da parede e uma mistura exagerada de papéis de paredes.
Eu não pude deixar de sorrir. Amava meus avós, amava a maneira como eles se recusavam a envelhecer. Gastava horas revirando seus baús, olhando cartas de pessoas que um dia foram amantes, fotos em preto e branco, poemas escritos em máquinas de escrever. As vezes tomava um golinho de vinho com minha avó na varanda, as vezes dançava uma valsa com meu avô, eu pisando no pé dele em vez do contrário. Era aquela forma como levavam a vida, a forma como conseguiram ser diferentes e modernos na época em que eram jovens, e que continuavam sendo até hoje, me fascinava. Minha avó, uma cigana meio boho chic, meu avô, um galã de shorts para cima do joelho e cabelo dividido no meio, uma alpargata no pé. Um namoro de verão, um reencontro inesperado na rua. Foi assim que a história deles começou, e ainda parece estar longe do fim. Mesmo depois de 47 anos juntos. As bodas seriam no ano que vem.
- Quem está aí? - ela perguntou de sua poltrona, todas as janelas e portas abertas, a cortina vermelha dançando no ritmo do vento. Seus olhos não se desviaram do ipad que repousava em seu colo.
- Marília - eu respondi, como sempre.
E a mesma piada foi feita pela milésima vez.
- De Dirceu? - seu cabelo branco estava preso num rabo de cavalo minúsculo, uma camiseta xadrez cobria-lhe os braços magros e cheios de manchas típicas da idade.
Eu me aproximei e a beijei no alto da testa.
- A musa do arcadismo - eu brinquei.
- Quem? Eu? - ela disse, fingindo surpresa. Sem esperar uma resposta, ela completou: É claro que sou eu, quem mais seria? Você?
Eu ri. O mau humor não tinha lugar naquela casa.
- E cadê o meu pastor você deve estar se perguntando.
Eu desabei no sofá, perto dela.
- Salút ! - ele irrompeu na sala, os braços levantados. Em uma mão, um vinho resgatado de sua coleção nada humilde, e na outra, três taças enroscadas em seus dedos.
- Mamãe vai começar a pegar no meu pé se eu continuar voltando para casa com os dentes roxos.
Eles riram.
- Até parece que você toma mais do que míseros 10 goles. E além disso, faz bem para o coração pequenina - ele se aproximou e estalou dois beijos em meu rosto, como os italianos. Era alto, com os seus 1,8 de altura compensando os 1,6 de sua amada, usava uma camisa branca aberta no peito e um shorts beje dobrado nas pontas. Os pés descalços deixavam marcas nos fios do carpete.
- Vamos madame - ele olhava para minha avó -, tire-a desse sofá. Os papéis estão sendo invertidos. Nós somos os idosos, e não ela!
Vovó se pôs de pé e me pegou pela mão, puxando-me até a varanda.
Em algum momento, um jazz começou a tocar na vitrola, e meu avô se juntou à nós em sua cadeira de balanço.
- Sei não em - eu vacilei, segurando a taça à altura de meu nariz, o cheiro impregnando em minha narina, enchendo minha boca de água.
- Carpe diem! - gritou o meu avô. Carpe diem principessa! - e levou à boca a taça.
Eu ri. Na rua, nenhum carro passava, e do quintal, a flor boca-de-leão ainda me encarava, esmagada pela minha bicicleta azul bebê.
- Não pensar no futuro né - eu disse. Acho que é uma boa ideia.
- Pense só no agora, aproveite querida. A vida é muito breve para ficarmos nos enchendo de regras e limites. - disse minha vó, intercalando sua frase com pequenos golinhos na bebida.
- Mietere il giorno e contare il meno possibile nel domani.
Eu olhei para meu galã italiano. Seu bigode branco estava espetado, e molhado.
- Colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã - ele traduziu, dando uma piscadela para mim.
Tomei um gole da taça. A frase não fazia muito sentido para mim. Talvez o italiano dele estivesse um pouco enferrujado, apesar dele dizer frases nessa língua desde que eu me lembro por gente.
- Não é muito bem isso que me ensinam em casa - eu disse chateada.
- E quem disse que alguém aqui está te ensinando como viver sua juventude? - disse minha vó, fingindo espanto.
Meu avô se engasgou.
- Onde que fomos parar il mi amore? Quando é que eu iria pensar que algum dia nós teríamos que ensinar os nossos netos a viver? A errar?
Ele interrompeu seu balanço, e inclinou seu corpo até mim.
- A morte é a única certeza da vida querida. Ela vem repentinamente. Nós não podemos escolher a forma como vamos morrer, mas sim a forma como vamos viver - esperei a sua piscadela costumeira, mas ela não veio. Podia até jurar que ele tinha prendido a respiração até o momento que eu concordei com o que ele disse.
Um silêncio tomou conta de nós. A garrafa foi virada nas taças novamente.
- Mamãe mandou queijo - lembrei de avisar.
Era a terceira vez só naquela semana.
- Minha filha deveria estar querendo que você passeasse um pouco.
Torci meu nariz.
- Fiquei sabendo que você só fica afundada em livros - continuou minha avó.
- Achei que era isso que ela queria de mim.
- Tenho é certeza que a sua mãe quer que você viva - dessa vez, foi ela quem piscou para mim.
O jazz pareceu aumentar de volume.
O cenário podia parecer sempre o mesmo, sempre claro, o sol iluminando meus fios loiros, a grama verde de minha avó sendo constantemente cavucada, o céu azul e limpo, apenas funcionando como pano de fundo para a minha vida, para meus lamúrios e choros, minhas reclamações, mas naquele momento, ele parecia completamente novo para mim.
- Carpe diem - eu sussurrei, e a taça foi esvaziada.
Marcadores: história

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Carpe diem
escrito em quinta-feira, 9 de maio de 2013 às 16:11
- Leve isso para os seus avós - eu sussurrei imitando minha mãe, o canto da boca repuxado , a testa franzida.
Desajeitada abri o pequeno portão da única casa de madeira daquela rua e empurrei a bicicleta para dentro, deixando-a cair no gramado levando consigo um broto de pé-de-leão. O tempo abafado fazia meu cabelo grudar em meu pescoço.
- Ops - disse indiferente, deixando a planta caída, esta observando-me até sumir pela porta, entrando numa confusão de fumaça de charuto cubano, quadros que me observavam da parede e uma mistura exagerada de papéis de paredes.
Eu não pude deixar de sorrir. Amava meus avós, amava a maneira como eles se recusavam a envelhecer. Gastava horas revirando seus baús, olhando cartas de pessoas que um dia foram amantes, fotos em preto e branco, poemas escritos em máquinas de escrever. As vezes tomava um golinho de vinho com minha avó na varanda, as vezes dançava uma valsa com meu avô, eu pisando no pé dele em vez do contrário. Era aquela forma como levavam a vida, a forma como conseguiram ser diferentes e modernos na época em que eram jovens, e que continuavam sendo até hoje, me fascinava. Minha avó, uma cigana meio boho chic, meu avô, um galã de shorts para cima do joelho e cabelo dividido no meio, uma alpargata no pé. Um namoro de verão, um reencontro inesperado na rua. Foi assim que a história deles começou, e ainda parece estar longe do fim. Mesmo depois de 47 anos juntos. As bodas seriam no ano que vem.
- Quem está aí? - ela perguntou de sua poltrona, todas as janelas e portas abertas, a cortina vermelha dançando no ritmo do vento. Seus olhos não se desviaram do ipad que repousava em seu colo.
- Marília - eu respondi, como sempre.
E a mesma piada foi feita pela milésima vez.
- De Dirceu? - seu cabelo branco estava preso num rabo de cavalo minúsculo, uma camiseta xadrez cobria-lhe os braços magros e cheios de manchas típicas da idade.
Eu me aproximei e a beijei no alto da testa.
- A musa do arcadismo - eu brinquei.
- Quem? Eu? - ela disse, fingindo surpresa. Sem esperar uma resposta, ela completou: É claro que sou eu, quem mais seria? Você?
Eu ri. O mau humor não tinha lugar naquela casa.
- E cadê o meu pastor você deve estar se perguntando.
Eu desabei no sofá, perto dela.
- Salút ! - ele irrompeu na sala, os braços levantados. Em uma mão, um vinho resgatado de sua coleção nada humilde, e na outra, três taças enroscadas em seus dedos.
- Mamãe vai começar a pegar no meu pé se eu continuar voltando para casa com os dentes roxos.
Eles riram.
- Até parece que você toma mais do que míseros 10 goles. E além disso, faz bem para o coração pequenina - ele se aproximou e estalou dois beijos em meu rosto, como os italianos. Era alto, com os seus 1,8 de altura compensando os 1,6 de sua amada, usava uma camisa branca aberta no peito e um shorts beje dobrado nas pontas. Os pés descalços deixavam marcas nos fios do carpete.
- Vamos madame - ele olhava para minha avó -, tire-a desse sofá. Os papéis estão sendo invertidos. Nós somos os idosos, e não ela!
Vovó se pôs de pé e me pegou pela mão, puxando-me até a varanda.
Em algum momento, um jazz começou a tocar na vitrola, e meu avô se juntou à nós em sua cadeira de balanço.
- Sei não em - eu vacilei, segurando a taça à altura de meu nariz, o cheiro impregnando em minha narina, enchendo minha boca de água.
- Carpe diem! - gritou o meu avô. Carpe diem principessa! - e levou à boca a taça.
Eu ri. Na rua, nenhum carro passava, e do quintal, a flor boca-de-leão ainda me encarava, esmagada pela minha bicicleta azul bebê.
- Não pensar no futuro né - eu disse. Acho que é uma boa ideia.
- Pense só no agora, aproveite querida. A vida é muito breve para ficarmos nos enchendo de regras e limites. - disse minha vó, intercalando sua frase com pequenos golinhos na bebida.
- Mietere il giorno e contare il meno possibile nel domani.
Eu olhei para meu galã italiano. Seu bigode branco estava espetado, e molhado.
- Colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã - ele traduziu, dando uma piscadela para mim.
Tomei um gole da taça. A frase não fazia muito sentido para mim. Talvez o italiano dele estivesse um pouco enferrujado, apesar dele dizer frases nessa língua desde que eu me lembro por gente.
- Não é muito bem isso que me ensinam em casa - eu disse chateada.
- E quem disse que alguém aqui está te ensinando como viver sua juventude? - disse minha vó, fingindo espanto.
Meu avô se engasgou.
- Onde que fomos parar il mi amore? Quando é que eu iria pensar que algum dia nós teríamos que ensinar os nossos netos a viver? A errar?
Ele interrompeu seu balanço, e inclinou seu corpo até mim.
- A morte é a única certeza da vida querida. Ela vem repentinamente. Nós não podemos escolher a forma como vamos morrer, mas sim a forma como vamos viver - esperei a sua piscadela costumeira, mas ela não veio. Podia até jurar que ele tinha prendido a respiração até o momento que eu concordei com o que ele disse.
Um silêncio tomou conta de nós. A garrafa foi virada nas taças novamente.
- Mamãe mandou queijo - lembrei de avisar.
Era a terceira vez só naquela semana.
- Minha filha deveria estar querendo que você passeasse um pouco.
Torci meu nariz.
- Fiquei sabendo que você só fica afundada em livros - continuou minha avó.
- Achei que era isso que ela queria de mim.
- Tenho é certeza que a sua mãe quer que você viva - dessa vez, foi ela quem piscou para mim.
O jazz pareceu aumentar de volume.
O cenário podia parecer sempre o mesmo, sempre claro, o sol iluminando meus fios loiros, a grama verde de minha avó sendo constantemente cavucada, o céu azul e limpo, apenas funcionando como pano de fundo para a minha vida, para meus lamúrios e choros, minhas reclamações, mas naquele momento, ele parecia completamente novo para mim.
- Carpe diem - eu sussurrei, e a taça foi esvaziada.
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ALLANA GONZALEZ.
“Não deixe sua felicidade depender de algo que você pode perder.”
- Autor Desconhecido
Maringaense, 16 anos. Perfeccionista, mas esculachada; irritada, e também ignorante. Durmo mais do que gostaria e escrevo mais do que poderia imaginar, só que tenho uma forte tendência a começar tudo e não terminar nada. Sou consumista compulsiva de livros, extremamente ansiosa e odeio bichos que voam na minha direção. Prefiro finais de semanas em sítio, do que ficar presa na cidade. Adoro o verão, mas gosto da atmosfera do inverno. Prefiro ficção do que romance, e sou meio claustrofóbica. Ainda escuto músicas da Disney e já estou no meu quinto diário. Não sei consolar pessoas, e também não sigo os meus próprios conselhos. Sou azarada, lerda, escandalosa. Meu sonho? Alcançar cada vez um público maior para minhas histórias.
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BAÚ DE TINTA
“E você continua escrevendo sua história pulando linhas, errando palavras, esquecendo os títulos.”
- Tati Bernardi.
Comecei a escrever porque gostava de brincar com as palavras, inventar humores, descrever cenários. Escrevia porque gostava de ter tudo sob controle, de saber o que aconteceria, e porque eu colocava como desfecho das minhas histórias as soluções para os problemas que não encontrava na realidade. Agora eu escrevo porque não aguento guardar tudo para mim, porque a realidade ficou muito chata, porque sinto demais. Escrevo primeiramente para mim e por mim. E esse blog surgiu porque eu queria que as pessoas conhecessem esse meu lado. E porque histórias são escritas para serem lidas.
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